sábado, 5 de maio de 2012

'Eu finjo ter paciência'

Nesse texto um exercício do 'EU'!
Sei que muitas vezes escrevo na primeira pessoa do plural, generalizando minhas considerações aos demais. Peço desculpas por isso.
Uma primeira colocação:  é difícil assumir certas impressões - vai que estou sozinha nisso!

Roubei essa frase da música do Lenine, porque ela sintetiza bem o sentimento atual do meu 'EU'.
Quem puder, me ajude a distinguir o que para mim hoje se confunde:
Tolerância/ Paciência/ Comodismo/ Fingimento...
No exercício diário de ter paciência, percebi que certas coisas não se pode tolerar.
A parcimônia por ora é nociva. Um mal difícil de se dissipar.
Assumo! Finjo ter paciência em momentos impróprios. E quando devia ela me escapa, não sou de ferro. Sou uma pessoa inquieta demais para isso.
Minha inquietude me leva a indagar até de forma excessiva e por vezes sem razão.
E o que sobressai é um sentimento forte de inadequação.
Os questionamentos não são bem-vistos! Discutir não é o que interessa. A palavra de ordem é ordem!
O que faço eu então, com os argumentos, coloco no bolso? Uso numa próxima ocasião? Quando terei espaço?
'Eu finjo ter paciência!'  Acho que deveria parar de fingir e realmente ter paciência.
Mas hoje está difícil. Conduzo minha vida na esperança de exprimir coerência.
Tentar minimizar o abismo de pensar, sentir e agir.
Mas a cadência é tão avessa, que num súbito instante percebo que ajo depois penso e por consequência sinto. E vejo culpa na lógica inversa que ocorrera.
'Me recuso, faço hora, vou na valsa, a vida é tão rara.'
Preciso de tempo e paciência porque o mundo vai girar cada vez mais veloz, eu sei.
Meu 'EU' precisa desse tempo, para entender a legitimidade das minhas questões, de onde elas vem e para que servem e finalmente para onde quero que elas vão.
'Será que é tempo que nos falta para perceber, será que temos esse tempo para perder?'

Não pretendia fazer do blog um despejo, mas  me foi útil organizar as idéias confusas, obscuras, doídas aqui. Desde o início havia esse propósito, vamos sublimar nessa via. E funciona!
Perdoe-me os leitores. A vocês também peço, PACIÊNCIA!


terça-feira, 1 de maio de 2012

Cobrir e despir

Eu gosto de olhar para vida. De olhar para dentro e para fora. Sobrevoar.
Eu gosto de imaginar - não tão humildemente como deveria - Deus, que vê tudo lá de cima, com a piedade que Ele tem, mas ao mesmo tempo com a unipresença que é só Dele.
É pretencioso mas vou dizer. Às vezes eu tento, também enxergar lá de cima as coisas daqui. Num exercício de compreender a vida, de compreender os passos, o percurso, o rumo da humanidade, sobretudo da minha humanidade. E é frustrante não ter o mesmo olhar de Deus. Porque eu não entendo, não tenho ciência como me agradaria ter. A cada dia eu questiono o 'não saber', como se eu merecesse esse bem e como se fosse um bem. Não dá para concluir que é.
Particularmente quero falar da construção de afetos. Na verdade o que interessa, não é um 'saber' lógico, de como as coisas se dão na vida, é um 'saber' socioemocional. Todo ser humano já se perguntou, por que eu sou como eu sou? Ou já projetou a pergunta  - Por que ele é quem é? Ou ainda por que eu não sou como ele é? E nisso há um determinismo contundente, fatalmente insistente, difícil de lidar. E todo o manejo do analista consite em saber mexer nisso. Tarefa árdua de questionar: quem é o quê? No máximo - com o perdão do gerúndio - nós estamos sendo. Não convence, todos sabemos disso. Saber que 'estamos sendo' é muito mais difícil, por motivos notórios. Abre espaço para mudança. Ser quem se é - não se surpreenda - é muito fácil, complexo é deixar de ser. Se despir diante do outro pode ser tortuoso. (Ai entenda o despir-se como quiser, de um jeito ou de outro ele é emblemático.) A vida exige uma roupagem diferente todos os dias. Conforme a estação, a ocasião, dependendo da companhia e até mesmo da solidão, precisamos nos vestir de uma ou outra maneira. O 'ser na vida' é dinâmico, de uma maneira que muitas vezes não conseguimos suportar. Deus, possivelmente tenta nos mostrar isso. Na hora que você acha que o tempo vai firmar, vem um temporal e exige de você, remanejar a agenda, reprogramar viagem, desfazer planos. Esse, com certeza, é o exemplo mais bobo, da lição maior.
E acho que Deus sabe que, às vezes, a gente precisa se cobrir também. O frio dói, por vezes, de maneira insuportável. A friagem que vem na hora que a gente precisa se despir é avassaladora. E temos medo, muito medo. Muitos de nós prefere se acomodar vestindo o pijama mais velho, aquele já surrado, furado, que ganhou no aniversário de 15 anos, e se abrigar debaixo do edredon que cobre tudo, para ninguém ver que o pijama é velho e feio. Fazemos isso a todo tempo com nosso 'eu' e com essas tais características socioemocionais que julgamos ser nossa constiuição e  nos agarramos a elas, não tiramos do 'corpo' de jeito nenhum, porque por mais que sejam 'velhas' são confortáveis demais.
Nós não precisamos jogar todos os nossos pijamos velhos de uma só vez, porque eles são necessários. Para além do consumo sem sentido, comprar roupas novas de vez em quando faz bem. Precisamos nos despir, nos ver nus, na expressão apropriada 'como viemos ao mundo'. Temos que abandonar um pouco desse 'eu' estático e imutável que incoscientemente criamos para sustentar a não mudança. E mais uma vez, é no corriqueiro que a vida ensina... Ah e Deus também.

A gente se acostuma, mas não devia...

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez vai pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, perde-se de si mesma.

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia" Marina Colasanti

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Um toque de leveza

O mundo está pesado.
Nada mais me intriga do que perceber o peso das coisas atuais.
Os indivíduos superdimensionam.
Perdeu-se o valor das coisas simples...
A modernidade surge para facilitar, mas sei lá porque motivo necessitamos complicar.
Talvez porque a vida não seja tão fácil, mas de fato ela pode ser mais leve.
Receber a nota de uma prova pode ser mais leve...
Gostar de alguém pode ser mais leve...
Receber uma crítica pode ser mais leve...
Ter um dia ruim pode ser mais leve...
Perder tempo com bobagem pode ser mais leve...
Perceber que não tem atenção de todos como gostaria pode ser mais leve...
Não fazer o que programou pode ser mais leve...

Tudo que pesa demais, ocupa mais espaço... e um dia pode não caber!
E quando não cabe, dói, sufoca, irrita, e angustia...
Abra espaço, desocupe. Amontoar culpa não vai adiantar...
Uma vez por dia, dê de ombros pra alguma coisa que está pesada...
Deixe a leveza chegar, devagar...

domingo, 25 de março de 2012

Amor é para quem ama - Lenine

Amor É Pra Quem Ama - Lenine

Qualquer amor já é
Um pouquinho de saúde
Um montão de claridade
Contribuição Pra cura dos problemas da cidade
Qualquer amor que vem
Desse vagabundo e bobo
Coração atrapalhado
Procurando o Endereço
De outro coração fechado
Amor é pra quem ama
Amor matéria-prima
A chama
O sumo
A soma
O tema
Amor é pra quem vive
Amor que não prescreve
Eterno
Terno
Pleno
Insando
Luz do sol da noite escura"
Qualquer amor já é
Um pouquinho de Saúde
Um descanso na Loucura"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Efeito apaziguador

Os afazeres diários nos desafiam a cada dia, a cada instante.
Não são somente ou principalmente os grandes feitos que nos mobilizam.
Reconheço hoje uma intensidade na vida comum e ao mesmo tempo um valor que há tempos atrás para mim, seriam empreendimentos possíveis de experimentação só para gente grande.
Grandes executivos, grandes cientistas, grandes artistas, grandes empreendedores.
Até então achava que só os grandes faziam a diferença.
Inversamente a essa minha pré-concepção, hoje me proponho a apreciar que a vida corre é ali, é aqui, é um gesto, uma atitude, uma palavra. Nessa forma de pensar, tudo fica dimensionado mais de perto.
Acho que nós temos uma grande dificuldade de aproximação, e provavelmente uma facilidade para distanciar. E lamentavelmente uma tendência para agir com a conveniência que nos fará tirar proveito numa situação ou noutra. E em tudo, o detalhe é decisivo, temos oportunidade de escolher, e tem muita gente escolhendo o momento errado na vida de aproximar e de afastar. Entretanto o aprendizado vem a galope, certeiro.
Revelar conforta. Eu preciso revelar. Tenho me convencido no decorrer da minha vida, do quanto os problemas estão perto, é um dado simples, se repete, e está ao lado, nos muitos lados, muitas vezes estão aqui e ai, comigo e com você, na vida da gente comum, que mata um leão por dia para conquistar o que quer que seja. Minha revelação não termina pessimista. Assim como a dor da alma humana pode se alcançar quem esticar a mão para tocar, a cura, a solução e a sanidade também estão bem pertinho. O caminho se abre no mesmo instante que você se abre para vê-lo surgir. Acostumamos a engessar os processos e muito mais, a engessar a nós mesmos.
Me proponho hoje ao exercício de girar!!!
Girando a gente passa a ver por vários ângulos, com outros olhos, sentir o nosso movimento aonde só havia paralisia, cansaço, desconforto. Girando, descobrimos coisas que estavam ali e nunca tínhamos notado, vemos movimento nas coisas ao nosso redor e girando eu percebo que eu sou só uma parte, uma pequena e ínfima parte de tudo que me cerca. Existe um todo maior, muito maior. Mas que eu só alcanço sendo parte. E ser parte, é ser pouco, é ser nada às vezes, é ser a pequena diferença, presente, insistente, que incomoda, que se mexe, que se prova na sutileza da vida, aquela que se repete, de sete às sete, mas que não se pode diminuir e que não necessita se engradecer.
Ao girar tudo fica mais ameno, pequeno e em paz...

domingo, 18 de março de 2012