segunda-feira, 9 de maio de 2016

A volta dos que não foram

Quando pensei em voltar a escrever no blog, não imaginava que seria pelas mesmas razões que me dedicava a isso antes: tristeza, confusão mental, angústia e, mais raramente, tédio. Escrevi algumas poucas coisas mais animadas, mas em algum sentido, figurado ou não, havia um devaneio particular que me causava inspiração. Comecei a pensar que isso não era nobre, não era justo. Não fazia sentido acreditar que, fazer algo que eu gostava, estaria sempre atrelado a um mal-estar. O fato é que se passaram vários meses e eu comecei a distanciar-me desse costume que me é tão caro.

No dia de hoje, eu estava às voltas com questões antigas, resumidas à "volta dos que não foram" e só pensava em ir para casa escrever. Sobre as lições do dia, sobre as amarguras, sobre as desilusões, sobre um caso ocorrido,  mas, felizmente não fiz isso. Não despejei as emoções em palavras, deixei esfriar o calor do momento e organizei os pensamentos. Recuperei a calma de outro modo para que eu pudesse me sentir aqui, menos sombria e melancólica. Embora às vezes eu pareça não me importar nem um pouco com essa imagem produzida, achei melhor suavizar.

O impasse ou dilema - não sei ao certo qual cabe melhor - se refere a um certo crédito que dei às coisas que, de fato, se resumem a nada, ou quase nada, àquilo que não chegou a ser, e que ainda assim, aparecem com tamanho significado. E, que só são, porque passam por mim, sendo significadas.

Depois de todo o destempero, resolvi que eu vou escolher melhor o que volta ou não, o que é ou foi, e os que foram. Por ora, deixo voltar e ficar esse meu gosto, meu estrago e meu alento.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Reprise


De todas as coisas que cansam, aquilo que repete cansa mais.
De um conjunto vasto de desprazeres da vida, o que repetidamente não dá certo, toma o primeiro lugar.
E o que se vê? 
Sujeitos exaustos, grupos enfadonhos e uma sociedade paralisada.
Pais esgotados, filhos sedentos e contatos escassos.
Vamos protestar!
Eu lanço a campanha contra às minhas desilusões.
Não votem no fracasso, mas saibam, ele se candidata toda vez.
No bololo das errâncias de todos os sujeitos, o que se busca é o atravessamento. Como é que dá fim ao sofrimento?
Se deparar com um feito novo revestido de velharia, dá uma preguiça danada.
É preciso muito além de desejo para sair do lugar.
Se faz necessário muito mais que frenesi, tititi e coisa e tal.
A implicação é extraordinariamente pessoal e difícil.
Pense em você ou pense no mundo.
Coisas se repetem, com um novo jeitinho, mas você sabe que tem algo antigo lá.
É Blasé, contudo, a revolução começa e se faz quando conflitos internos são colocados a trabalho. Um a um. 

Boas ilusões


Em alguma fase da vida você descobre que se iludir é bom.
Em alguma circunstância da vida você preferia ter sido enganado.
Em algum momento da vida você deixa de se importar com verdades absolutas e obsoletas. 
Em algum triste fato da vida você não consegue deixar de mentir.
Em alguma crise da vida você se convence que acreditar em qualquer coisa é melhor do que descrer de tudo.
Por melhor que seja seu otimismo, ele não deixa de ser ilusão e por pior que seja seu pessimismo, ele não deixa de ser ingratidão.
A frágil crença e a firme fé são dois lados daquela moeda em que se opta duvidar e ao mesmo tempo se deixar enganar.
Tem gente que vai se perguntar, como isso pode ser bom?
Por ora, eu não sei explicar.
Contudo, as pessoas mais felizes que conheço não vivem com "pé atrás", as mais inteligentes não testaram todas as teorias que defendem. Os sujeitos mais interessantes que conheço parecem não ocupar suas mentes com enciclopédias ambulantes mas sim com boas ilusões.

Um recado para o futuro


Sem perceber você se aproxima de algo que não se sabe o que é, contudo sabe que aquele é o seu lugar no mundo.
Pouco a pouco, a compreensão de um sentido da vida aparece como um feixe de luz que entra pela fresta da janela do quarto escuro.
Amanhece e se esquece. Tantas outras coisas tomam o dia agitado. 
É quando a mente silencia que a reflexão mais profunda te interroga.
O que você quer? Como quer viver? Para quê?
Da angústia de não saber, dia após dia, você caminha por alguma direção, ansiando que esteja no caminho certo.
Muitas decisões perpassam essa estrada. Nessas se descobre um sujeito de direitos. Direito de pensar, opinar, de se afetar, de se surpreender e de se envolver.
Num súbito momento de análise, de retomada da existência, a sua consciência se preenche de uma formidável paz.
Você entende que está perto. Próximo a uma subjetividade que contempla o seu desejo. Os laços construídos são os motivos elementares de constatação dessa realização de viver.
E assim vai, seguindo os passos invisíveis e individuais sustentados por um aparato coletivo compartilhado.
Para encerrar eu digo - pois é, tem muita coisa por vir - então, não tenho pressa, fico esperando.

A pequena menina confusa e o sonho de padaria


Bem acostumada a comer pão com manteiga e leite quente no café, Lara durante anos viveu aceitando o suficiente e o básico.
Um dia se deparou com um grande sonho recheado na padaria e salivou. Seguiu para fila do pão. Pediu os quatro pães de sal costumeiramente e partiu para casa, ainda delirando com aquele recheio que transbordava amarelinho.
Ela já tinha 12 anos e suas experiências de vida eram bem comuns. As meninas com quem brincava também sonhavam em ser professora. Iam para escola com suas mães e voltavam juntas cantarolando, era uma sensação de pura liberdade. As mães ainda na lida na fábrica recomendavam juízo e oravam a cada minuto daquela última hora de trabalho. Às vezes Lara dizia envergonhada - eu quero ser professora, mas eu também queria cantar. As amigas caiam na risada. Ela sabia que era maluquice pensar aquilo, ainda mais para Lara que nunca teve coragem de comprar o sonho na padaria. Mas gostar, ela gostava de imaginar. Cantar para uma multidão, vestir umas roupas coloridas e receber os aplausos após o show.
Lara cresceu, com 18 anos estava na faculdade cursando Letras, adorava gramática e tinha paixão por literatura. Ainda era confusa e insegura.
Em um dia que estava agoniada resolveu voltar àquela padaria. O sonho não comido a assombrava. Decidiu que ousaria mais em sua vida, afinal não era mais criança. Parece uma grande besteira, porém Lara chegou a padaria até acanhada e diante do seu maior desafio, parou e refletiu por instantes. Logo viu que estava devaneando demais para concluir uma tarefa tão simples. Não sabia se apreciava ou se devorava. Era sem jeito comer aquele sonho. Alías, aquele sonho talvez não fosse tão difícil de comer, porque nem era assim tão bom. Então, a menina confusa se frustrou. Achou que teria um êxtase com aquela bola encaramelada de açúcar. De certa forma, o exagero proporcionado pela expectativa ensinou algumas coisas para mocinha já crescida.
De fato, sair da rotina e alcançar àquilo que te perturba como um obstáculo de vida dá uma sensação danada de boa. Se privar de fazer algo novo, por mais bobo que seja, por falta de costume é bem chato e deixa a vida entediante. Contudo, a lição do sonho de padaria para vida de Lara é essa: mesmo aquilo que consideramos não estar ao nosso alcance pode ser experimentado um dia e pode não agradar. Descobriremos durante a vida milhares de outras coisas a nos desafiar. Se Lara não tivesse se sentido tão ameaçada pelo sonho quem sabe ele não a proporcionaria uma sensação de prazer.
Lara hoje vive de música, canta nos barzinhos de Tirandentes e também faz o doutorado em Literatura na UFSJ.
Boa noite e um final de semana com muitos sonhos!

Alma romântica

Sempre haverá quem deprecie uma ideia romanceada, sempre haverá quem não tem essa leitura da vida. Faz mal não. 
Vive-se bem assim também.
Só sinto muito que eu não me permita ter a tua frieza, porque gosto da minha vida aquecida, encalourada, ardente. 
Gosto de admirar, de falar que quero bem, gosto de abraçar apertado e suspirando.
Gosto de apoio concreto, de demonstração de afeto, de modo mais besta e casual.
Não me envaideço por isso, talvez se eu não tivesse essa necessidade, redescobria outro tom.
Mas por hoje, quero não. Quero continuar na aposta.
Na vida com espaço para dizer que tem saudade, sem mediocridade e métrica.
Quero essa vida de devaneios afetados de amor, de graça, de melancolia, de poesia, de desejo.
Quero mais é escutar as músicas e as pessoas que aprecio, sentindo um trem bom no peito.
Quero mais é pensar num bem e querer estar perto.
Na minha vida cabe chorar de vez em quando por querer ser melhor a cada dia.
Na minha estrada vou com uma mala cheia e uma vazia.
E na minha alma romântica há mesmo muita vontade de coisas bonitas porque não me satisfaz o que está na ordem do dia.

De coração manteiga derretida



Sob a ótica do amor tudo me encanta.
Hoje. Nem sempre foi assim. Já foi e deixou de ser e voltou a ser.
Por uns tempos pregava que o amor nem existia. 
Inveja de pessoa ressentida. Assumo, pois é.
Há quem diga que é coisa do meu coração manteiga derretida.
Deve ser. Esse é o jeito que gosto de ser. Meu estar no mundo é sensível, é admirar sentimentos bons que se materializam no cotidiano, em palavras, em gestos, em combinações.
É isso, torcer que dê tudo certo para os amantes.
Se você acha isso bobo, pode crer também acho.
E ai que está, gosto muito das bobeiras da vida. Se não fossem elas, sei lá, seria bem mais chato viver.
Acho bonito.
Um casal em uma casa nova, juntos, sorrisos estampados e frio na barriga quando se pensa na convivência. No entanto, apostando tudo.
Acho graça.
Casal que prevê o que o outro pensa, o que o parceiro vai falar, do mesmo jeitinho.
Acho admirável.
Duas pessoas se unirem e assim ficarem até perderem a conta dos dias, das horas, dos anos.
Quanta coisa o amor supera.
Para terminar só peço uma coisa: "para nós todo amor do mundo"!