sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O pulo do gato



Como se tivesse descoberto algo, envolto de grande segredo e encanto, permaneceu contendo-se das emoções que lhe ocorriam de sobressalto. 
Cantava por dentro as canções que soavam mística e ainda assim revelava por descuido algumas frases soltas, talvez àquelas que a alma não aguentava segurar. Eram as mais marcantes. 
Talvez quisesse fazer como todos os outros faziam: revelar-se otempo todo para quem quer seja, para muitos e para poucos de consideração.
Ponderando sobre si, decidiu que melhor não. Guardo para mim meu sucesso e meu fracasso de cada dia. Até mesmo os amigos, poucos devem saber, do muito que se necessita dizer. Devagar entende-se o porquê.
A sua verdade (se é que isso existe) estava sendo desencoberta por um árduo trabalho, duro trabalho, de insistência e de dor.
As coisas tornavam-se difíceis por demais quando entendia que fazer a mesma coisa de sempre manteria o mesmo infortúnio de sempre.
E fazer diferente era a questão. Agora explica: como? de que jeito? Famoso pulo do gato.
O pulo do gato ninguém explica, porquê ninguém entende.
Ou melhor, entende. Coisas que só as razões particulares pode fazer entender. Generalizar não funciona. Globalizar não funciona. Recomendar não funciona.
Para ele foi fazendo sentido devagar, tão devagar que dava até nervoso. Até que foi sendo tomado por relâmpagos de ideias sobre como caminhar. E por ai que está o pulo do gato.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ressignificar uma porção de coisas


Não é que seja bom querer o sol e ganhar a lua.
Não é que seja ruim esperar a chuva e o tempo abrir.
Não é que seja triste descobrir a solidão.
Não é que seja feliz quem não para de rir.
No mundo uma porção de coisas estão por ai.
No mundo uma porção dessas coisas não estão nem ai.
No mundo uma porção de gente não está nem ai.
No mundo uma porção de coisas estão por vir.
E não é que seja difícil esperar.
Não é que seja impossível perdoar.
Não é que se queira o mal, nem o bem e talvez o mal e o bem.
No mundo dessa porção de coisas o que se tem já valeu mais.
No mundo de uma porção de coisas é difícil saber o que dar valor.
No mundo de meias porções e porções inteiras
Tem gente que se dá, se vende, se entrega, se conquista.
Não é que seja ruim quem se dá.
Não é que seja menor quem se vende.
Não é que seja melhor quem se entrega.
Mas é que no mundo dessa porção de coisas
Quem se conquista para deixar-se conquistar
Tem que ressignificar uma porção de coisas.

sábado, 10 de agosto de 2013

Um golpe da vida

Como se pretendesse ser tudo que não se é, mostrava-se em excesso.
Tentava cotidianamente domar seus leões internos.
Conhecendo-se de cabo a rabo sabia que não era fácil.
Faria mais e melhor, à esquiva de sua naturalidade.
Pode até então ouvir queixas e achava mesmo que não tinha lugar no mundo.
O que pairava no ambiente higiênico não permitia sua sujeira aparecer.
Vivia se corrigindo, se desculpando, se culpando e fugindo de se reconhecer.
Colecionava desafetos e sobravam desentendimentos, até que sua própria tristeza conduziu-o a uma direção diferente. Sempre dizia, não aprendi isso, não fazia assim, eu sou desse jeito. Não vou me adaptar.

"Agua mole em pedra dura tanto bate até que fura."

Vendo de outro modo, foi um jato bem intenso, frio congelante, que tratou de despedaçar.
A quebrar resistências, arrogâncias, um ar cheio de razão.
Desmoronado tratou de refazer-se.
Talvez não mais quisesse ser pedra.
Talvez não quisesse ser muito rígido.
Talvez não quisesse ser duro consigo mesmo.
Talvez não quisesse sua frieza com os outros seres.
Talvez se constituiria um novo ser.
O que se há de fazer com os golpes da vida?
O que se há de fazer com a impossibilidade de ser a mesma coisa?
Dentre tantas possibilidades, aceitar.









sábado, 25 de maio de 2013

Tudo fica sustentado pela fé

Alimento da alma não se encontra em ofertas fáceis.
É preciso um arrancar de si.
Perceber-se sedento, ainda que se desconheça do quê.
É quando se olha para cima e se olha para dentro para entender.
E se olha para dentro e se olha para cima para perdoar.
Não necessita falar, não necessita saber, não necessita pedir.
Mas se puder explicar, traduzir em palavras vai ajudar.
Incredulidade que cega, afasta e desmorona a esperança.
Aceitar que não se crê devia aproximar.
Confessar que não compreende os fatos.
Desafrouxando as dores do peito.
Permitir não guardar todas.
Desaprisionar a tristeza, dá-lhe outra moradia.
Não sou capaz de pensar pouco.
Não me desapego e esqueço o que quero abandonar.
Só rezo e peço que eu 'veja no geral' e possa acreditar.
Com pena que não me enganam as coisas vis.
Para mim não basta aparentar tem que transcender.
Nem sempre transparecer e aparecer.
Entregar-se!
Tentativa de estar perto do amor maior que não está em mim.
Que só sinto quando acredito que posso confiar.

"Milagres acontecem quando a gente vai à luta."  OTM

sábado, 18 de maio de 2013

Recuperar o bem



O medo do louco, não desfaz a tua loucura.
O medo da vida, não a torna compreensível.
Valeu-se na prerrogativa - afasta de mim esse cálice.
E Deus não permite.
O medo do aprisionamento, não o faz livre.
O medo de amar, não te exime de querer ser amado.
E por estar assim, a alma padece.
Humano que quer longe outro humano, que não se reconhecem.
Em tempos de avanço 'irmão desconhece irmão'.
Ora, já se sabe há tantos mil anos, não temos tetos de vidro.
O medo do mal, não o dissipará.
O medo de Deus, não vai te amparar.
Desacobertar o estrago.
Desassossegar a alma.
Desestranhar o outro.
Reconhecer-se frágil.
Redescobrir os laços.
Recuperar o bem.







sábado, 4 de maio de 2013

Sutil firmeza, firme sutileza


Um viver de sensibilidade em meio à aspereza do que é estar vivo.
Um afeto solto, descompromissado, atrapalhado e sincero.
Uma observância de cuidado, não uma fiscalização rígida.
O tato, o abraço, o remédio, o agrado.
Um querer de vontade em meio aos imperativos do que é estar vivo.
Um incentivo calado, acalentado, emotivo e suave.
Um olhar penetrante e não uma atenção flutuante.
O sorriso, o gosto, o tédio e o contato.

Quais regras a valer quando o que se quer é poder chegar mais perto?
De um romantismo bobo feito inspiração para quem pode perceber.
A sutileza da constatação.
Quanto tempo esperar quando se sabe que é a vez do outro de dizer?
De uma expectativa leviana feita contradição para quem deve escolher.
A firmeza da decisão.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

"Um chá pra curar esta azia, um bom chá pra curar esta azia"

Tem o hábito do café. Tem outros hábitos também.
Tem coisa que nunca muda.
Tem coisa que agride, fere, corrói por dentro. Uma azia.
Aquela coisa tipo enjoo, aquela coisa que não desce bem.
Aquilo que deixa empazinado, que era melhor não estar ali.
A gente sabe o que gosta e o que agrada, mas nem sempre escolhe bem.
A gente nem sempre dá o tempo certo para digerir.
A gente não tem como prever o que vai fazer mal, ou pelo menos não exatamente.
Uma hora a gente decide mudar hábitos.
Escolhe melhor o que a gente quer que fique.
Decide o que não vai entrar e resolve expulsar aquilo que fez mal.
Não se trata de café somente.
Uma hora a gente decide mudar a vida.
Nessa hora um chá cai bem para curar a azia.
O mal-estar da alma pede outras escolhas.