Ernesto acordava reclamando do despertador.
Logo em frente ao espelho, discutia com ele mesmo.
Não estava satisfeito com o sombreado das olheras em seu rosto.
Ernesto fazia o pão com manteiga de cada dia,
desejando o apresuntado do vizinho.
Implorava para que a lata do pó de café, reproduzisse o produto sozinha.
Sem sucesso, obviamente, partia para o nescau com leite ninho.
Não achava o ponto bom nem por reza.
E às 7:45 da manhã, Ernesto já conseguiu de cinco formas lamentar ter nascido.
Que droga de vida!
Nada dar certo para mim...
O que eu vim fazer aqui?
Porque não escolhia eu, viver ou não?
Para eu me dar mal, basta estar vivo...
Eram 8:25 e não se pdoe calcular, o quanto o mal-humor de Ernesto exalava desagrado.
Enquanto tomava banho, pensava na roupa que não tinha para vestir,
no carro importava que precisava consumir,
na mesquinharia de tudo que é tipo,
e desdenhava o que outro tinha e não podia comprar,
se achando no direito de ter e ser mais, como não?
Ernesto aceitara trabalhar para sobreviver. Mas depois viu vantagem.
Suportava sua rotina, porque ali, mais um milhão de motivos arranjava para se queixar.
Ainda de rebarba, encontrava também meia dúzia de ostentadores da desgraça alheia,
que se distraiam a ouvir a verbóeia de Ernesto,
contra a siderúrgica, metia o pau no patrão bobão,
não dispensava um comentário de baixo calão sobre Joana da limpeza,
perseguia o assim apelidado, Marchalenta do operacional,
e sua função demasiadamente simplória, na sua opinião,
justificava para Ernesto, a permissão para o falatório geral.
Ninguém era bom o bastante, nada era interessante o suficiente,
os comandos estavam equivocados, culpa do governo e do sistema.
Nenhum som ecoava suave e tranqulizante, tudo agredia e agoniava,
azar da cozinheira que se desafiava agradar tal paladar,
estava fadada a considerar-se zero a esquerda por muito tempo.
Ernesto, falava sem pudor, falava sem clichê, falava sem eira nem beira,
se queixava de tudo, de todos, de nada e de coisa alguma.
Sua áurea era azul petróleo e seu sorriso nunca se viu.
Do seu gosto não se sabe, mas do seu desgosto, muitos provaram.
Ernesto, era rei da incoveniência, maestro da desavença, amigo da tensão,
não se casou com a petulância, porque ela não aceitou.
Assim era Ernesto, o prolixo poliqueixoso.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Minha filosofia (Casuarina)
Não dá para não pensar nesta filosofia de vida... Essa música realmente me inspira...
Que possa inspirar também a vocês que visitam aqui...
Que possa inspirar também a vocês que visitam aqui...
Minha FilosofiaCasuarina
"Vai passarEsse meu mal estarEsse nó na gargantaDeixe estar... O próprio tempo diráÁgua demais mata a planta
Tudo que é muito, é demaisPeço: me perdoe a redundânciaEntrelinhas só quero lembrarQue a terra fértil um dia se cansaÉ uma questão de esperarRelógio que atrasa não adiantaE o remédio que curaTambém pode matarComo água demais mata a planta."
"Vai passarEsse meu mal estarEsse nó na gargantaDeixe estar... O próprio tempo diráÁgua demais mata a planta
Tudo que é muito, é demaisPeço: me perdoe a redundânciaEntrelinhas só quero lembrarQue a terra fértil um dia se cansaÉ uma questão de esperarRelógio que atrasa não adiantaE o remédio que curaTambém pode matarComo água demais mata a planta."
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Num lugar sem espaço ou num espaço sem lugar
Desde os tempos remotos, a busca por espaço e por lugar é motivo de conquista, vitória e comemoração. Quem é entendido de História muito melhor do que eu pode dar explicações. Também os geógrafos conceituam espaço e lugar, configurando-se uma área de domínio desses estudiosos. O fato é que, mesmo usando-os como sinônimos não nos damos conta das sutis diferenças. Espaço designa um lugar determinado, porém lugar não é definido como um espaço, necessariamente (ao menos não pelo dicionário que consultei). Isso tudo é para introduzir, na verdade, a minha percepção particular da busca humana por encontrar espaço, lugar, lugar, espaço, e assim sem fim. Muitas pessoas já devem ter empregado as seguintes frases nas mais diversas ocasiões: "Minha namorada/pais/afins não me dão espaço", "Me sinto sem lugar", "Não tem espaço para mim nesta equipe/grupo", "Quero estar alcançar um lugar na empresa", "Aquela lá está tomando meu espaço" e inúmeras variações. Parece interminável. Se me dedicar a compor frases cotidianamente utilizadas, atrevo-me a dizer que passarei horas nesta brincadeira. Às vezes tenho a impressão de que muitas pessoas perdem o tempo, a estribeira e o juízo, atrapalhados por não se localizar, e vivem tentando delimitar os territórios de suas vidas. Justo, não é nada fácil. Impressiona a conduta de iluminados seres humanos, que com maestria, conquistam lugar, voz e vez no mundo, e assim tomam grande espaço na política, na educação, na música, na ciência. Exemplos raros. Eu, por assim descrever, na condição de discípulo aprendiz, desbravo territórios desconhecidos, entro por caminhos estreitos, bato em portas falsas, deparo-me com povos nativos, com civilizações estranhas, busco a calmaria navegando no oceano. Retorno para casa, e rezo para ter energia no despertar da manhã seguinte para decifrar um pouco mais nitidamente qual o lugar que quero e preciso encontrar, qual é espaço que necessito para viver, qual será minha posição perante os acontecimentos, como irei conduzir minhas escolhas, quais os limites vou impor diante de tudo aquilo que me abraça e que quero abraçar. Minha segurança é que bússolas e mapas podem nortear as descobertas, mesmo que sejam aquelas inesperadas por mim. E se assim for, um tanto melhor.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Síndrome dos vinte e poucos anos
A chamam de 'crise do quarto de vida'. Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos.Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc. E cada vez desfruta mais dessa cerveijinha que serve como desculpa para conversar um pouco. As multidões já não são 'tão divertidas'... E às vezes até lhe incomodam. E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante. Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo. Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você. Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal. Ou, talvez, a noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor. Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar. Talvez você também, realmente, ame alguém, mas, simplesmente, não tem certeza se está preparado (a) para se comprometer pelo resto da vida. Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbado(a) e agir como um(a) idiota começa a parecer, realmente, estúpido. Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotada(o) e significa muito dinheiro para seu salário. Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer. Suas opiniões se tornam mais fortes. Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é. Às vezes, você se sente genial e invencível, outras... Apenas com medo e confusa (o). De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando. Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro... E com construir uma vida para você. E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela. Todos nós que temos 'vinte e tantos' e gostaríamos de voltar aos 15-16 algumas vezes. Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça... Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos... Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro. Parece que foi ontem que tínhamos 16... Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?!
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Mistérios palavriados
Jogue as palavras,
Engole as palavras,
Recupere as palavras,
"Não foi o que quis dizer"
Conserte as palavras,
Revire as palavras,
Recompõe em palavras,
"Não sei o que dizer"
Tremem as palavras,
Fraquejam as palavras,
Engasgam as palavras,
"É preciso dizer"
Sumiram as palavras
Cansaram as palavras
Para onde foram as palavras?
"O que elas querem dizer?"
Emudece - "Não se pode dizer."
Voltam as palavras
Refaz em palavras
Coloca em palavras
Deu voz as palavras.
Esquece aquelas palavras
Penetram profundo as palavras
Aumenta o som das suas palavras
"Pode dizer".
Engole as palavras,
Recupere as palavras,
"Não foi o que quis dizer"
Conserte as palavras,
Revire as palavras,
Recompõe em palavras,
"Não sei o que dizer"
Tremem as palavras,
Fraquejam as palavras,
Engasgam as palavras,
"É preciso dizer"
Sumiram as palavras
Cansaram as palavras
Para onde foram as palavras?
"O que elas querem dizer?"
Emudece - "Não se pode dizer."
Voltam as palavras
Refaz em palavras
Coloca em palavras
Deu voz as palavras.
Esquece aquelas palavras
Penetram profundo as palavras
Aumenta o som das suas palavras
"Pode dizer".
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Rendida ao táxi e ao taxista
Acho que não houve e nem haverá um dia em que fiquei mais tempo dentro de um táxi.
Em algumas corridas por escolha própria, em outras por obra de atrasos e importunos desse vai e vem.
O fato é que me lembrei de uma crônica de Clarice (na intimidade) sobre a solidariedade, não me recordo o nome exato, mas enquanto as coisas foram acontecendo fui resgatando seu enredo indo de encontro com o meu desfecho. Na minha segunda corrida de táxi de hoje, curiosamente fui indagada se gostava de literatura, pelo taxista. Respondendo que sim, ele questionou mais precisamente, se gostava de literatura - sem ser acadêmica, disse que gostava ainda mais. Já estava espantada e ansiosa para ouvir o motivo da pergunta. Foi quando o taxista me apresentou um livro que tratava justamente sobre sua vida profissional, da vida dentro de um táxi e suas histórias. Contando um pouco sobre a estrutura do livro, logo desconfiei que ele mesmo era o autor. Dei crédito, afinal, não é todo dia que vemos um empreendimento assim. Ao tentar me convencer sutilmente pela compra, contou-me adiantadamente algumas histórias narradas no livro e enfatizava que não eram fictícias e que ele tinha sido participante delas. Folheei o livro e comecei a achar aquilo fascinante, afinal, não tem muito tempo que imaginei justamente isso. Num instante oportuno, declarei-me psicóloga ao taxista que prontamente me falou de Freud e não pude esconder o sorriso (sei lá se sínico, mas ri), me contou até de um psicanalista que fala na rádio. Já estava decidida a comprar o livro, mas sabendo do preço desanimei, mesquinharia ou não, sabia que devia levar, e levei sem pestanejar muito. Algo dentro de mim estava estranho, eu dei crédito e ao mesmo tempo desmereci, duvidando da capacidade daquele sujeito de escrever um livro que realmente me tocasse. No final senti-me pressionada por mim mesma a comprá-lo. Nada me obrigava àquilo mas soava imposição. Imagine só se eu descartasse aquela obra como se descarta um panfleto entregue na rua? Para mim fazer isso seria inadmissível, aliás o taxista me convenceu, chegou me despertar interesse na leitura. Enfim, cansei de me condenar pelo sim e pelo não. Chegando e acomodando-me no ônibus da rodoviária para casa, engatei a leitura na velocidade da viagem. Então... Li! Em algumas frases lidas fiz careta, em outras aquela expressão de "óoó", li todo o livro. Esperava mais. Mas o que há de errado? É claro que não fui caridosa, nem tão pouco acreditei que leria um livro excepcional de literatura, mas no fim das contas admirei o cara. Com jeito de boa praça, fez o que tinha que fazer, relatou as histórias, escreveu um livro, publicou-o, possivelmente vende aos montes para os passageiros e no livro dá o seu recado e sobretudo ganha mais clientes para as corridas, sem demagogia, essa é a lógica. Mais interessante ainda é que introspectivamente analisei e reanalisei meus pensamentos e sei que parecia haver um movimento em mim que dizia não inveje, não critique e não condene, e cá estou eu impacta com o vivido e rendida ao taxista, contando para vocês.
Em algumas corridas por escolha própria, em outras por obra de atrasos e importunos desse vai e vem.
O fato é que me lembrei de uma crônica de Clarice (na intimidade) sobre a solidariedade, não me recordo o nome exato, mas enquanto as coisas foram acontecendo fui resgatando seu enredo indo de encontro com o meu desfecho. Na minha segunda corrida de táxi de hoje, curiosamente fui indagada se gostava de literatura, pelo taxista. Respondendo que sim, ele questionou mais precisamente, se gostava de literatura - sem ser acadêmica, disse que gostava ainda mais. Já estava espantada e ansiosa para ouvir o motivo da pergunta. Foi quando o taxista me apresentou um livro que tratava justamente sobre sua vida profissional, da vida dentro de um táxi e suas histórias. Contando um pouco sobre a estrutura do livro, logo desconfiei que ele mesmo era o autor. Dei crédito, afinal, não é todo dia que vemos um empreendimento assim. Ao tentar me convencer sutilmente pela compra, contou-me adiantadamente algumas histórias narradas no livro e enfatizava que não eram fictícias e que ele tinha sido participante delas. Folheei o livro e comecei a achar aquilo fascinante, afinal, não tem muito tempo que imaginei justamente isso. Num instante oportuno, declarei-me psicóloga ao taxista que prontamente me falou de Freud e não pude esconder o sorriso (sei lá se sínico, mas ri), me contou até de um psicanalista que fala na rádio. Já estava decidida a comprar o livro, mas sabendo do preço desanimei, mesquinharia ou não, sabia que devia levar, e levei sem pestanejar muito. Algo dentro de mim estava estranho, eu dei crédito e ao mesmo tempo desmereci, duvidando da capacidade daquele sujeito de escrever um livro que realmente me tocasse. No final senti-me pressionada por mim mesma a comprá-lo. Nada me obrigava àquilo mas soava imposição. Imagine só se eu descartasse aquela obra como se descarta um panfleto entregue na rua? Para mim fazer isso seria inadmissível, aliás o taxista me convenceu, chegou me despertar interesse na leitura. Enfim, cansei de me condenar pelo sim e pelo não. Chegando e acomodando-me no ônibus da rodoviária para casa, engatei a leitura na velocidade da viagem. Então... Li! Em algumas frases lidas fiz careta, em outras aquela expressão de "óoó", li todo o livro. Esperava mais. Mas o que há de errado? É claro que não fui caridosa, nem tão pouco acreditei que leria um livro excepcional de literatura, mas no fim das contas admirei o cara. Com jeito de boa praça, fez o que tinha que fazer, relatou as histórias, escreveu um livro, publicou-o, possivelmente vende aos montes para os passageiros e no livro dá o seu recado e sobretudo ganha mais clientes para as corridas, sem demagogia, essa é a lógica. Mais interessante ainda é que introspectivamente analisei e reanalisei meus pensamentos e sei que parecia haver um movimento em mim que dizia não inveje, não critique e não condene, e cá estou eu impacta com o vivido e rendida ao taxista, contando para vocês.
sábado, 12 de novembro de 2011
Devaneios de uma vida sem respostas
Algumas pessoas carregam em si virtudes e limites que às vezes pesam como fardos. É claro que para isso existem razões, obscuras e duras de se saber. Ou que não se pode, não se deve, não se quer saber. Começo analisar os comportamentos humanos (sobretudo o meu) e me intriga a cada dia mais a loucura cotidiana com as coisas corriqueiras e as proporções que tomam. Facilmente percebidas e dificilmente desveladas. Não recomendo subestimar a capacidade do homem de ser complexo, de ser avesso, de se atropelar pelas escolhas da vida, de se modular conforme sua dor e desapontamento, naquilo que não dá conta, a sua própria existência. Não se trata de uma configuração pejorativa de reflexão. Mesmo porque, como posso entender o súbito desespero de não aceitar a realidade difícil na qual estamos inseridos? Não há como contestar, ainda com as tentativas de colocar a deriva do acaso os acontecimentos indesejáveis, ninguém (desse mundo) sabe viver, em todas as circunstâncias. Se alguém souber, desafio as evidências. Para não finalizar com tom pessimista, conformo-me com a angústia da crítica colocada. O que me dá contento é não estar no engano, não iludir-me com receitas prontas de felicidade e de condutas corretas, compartilhando com a ideia de uma massa de gente mascarada pelo vazio que invade a todos, não há como escapar. Prefiro os resquícios de direção que as minhas dificuldades me assinalam e não encarar a vida como um todo pronto e acabado. Assim talvez entendamos os altos e baixos, nossas virtudes e limites, e respeitemos mais o ser humano tal como é, incompleto.
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