sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um recado para o futuro


Sem perceber você se aproxima de algo que não se sabe o que é, contudo sabe que aquele é o seu lugar no mundo.
Pouco a pouco, a compreensão de um sentido da vida aparece como um feixe de luz que entra pela fresta da janela do quarto escuro.
Amanhece e se esquece. Tantas outras coisas tomam o dia agitado. 
É quando a mente silencia que a reflexão mais profunda te interroga.
O que você quer? Como quer viver? Para quê?
Da angústia de não saber, dia após dia, você caminha por alguma direção, ansiando que esteja no caminho certo.
Muitas decisões perpassam essa estrada. Nessas se descobre um sujeito de direitos. Direito de pensar, opinar, de se afetar, de se surpreender e de se envolver.
Num súbito momento de análise, de retomada da existência, a sua consciência se preenche de uma formidável paz.
Você entende que está perto. Próximo a uma subjetividade que contempla o seu desejo. Os laços construídos são os motivos elementares de constatação dessa realização de viver.
E assim vai, seguindo os passos invisíveis e individuais sustentados por um aparato coletivo compartilhado.
Para encerrar eu digo - pois é, tem muita coisa por vir - então, não tenho pressa, fico esperando.

A pequena menina confusa e o sonho de padaria


Bem acostumada a comer pão com manteiga e leite quente no café, Lara durante anos viveu aceitando o suficiente e o básico.
Um dia se deparou com um grande sonho recheado na padaria e salivou. Seguiu para fila do pão. Pediu os quatro pães de sal costumeiramente e partiu para casa, ainda delirando com aquele recheio que transbordava amarelinho.
Ela já tinha 12 anos e suas experiências de vida eram bem comuns. As meninas com quem brincava também sonhavam em ser professora. Iam para escola com suas mães e voltavam juntas cantarolando, era uma sensação de pura liberdade. As mães ainda na lida na fábrica recomendavam juízo e oravam a cada minuto daquela última hora de trabalho. Às vezes Lara dizia envergonhada - eu quero ser professora, mas eu também queria cantar. As amigas caiam na risada. Ela sabia que era maluquice pensar aquilo, ainda mais para Lara que nunca teve coragem de comprar o sonho na padaria. Mas gostar, ela gostava de imaginar. Cantar para uma multidão, vestir umas roupas coloridas e receber os aplausos após o show.
Lara cresceu, com 18 anos estava na faculdade cursando Letras, adorava gramática e tinha paixão por literatura. Ainda era confusa e insegura.
Em um dia que estava agoniada resolveu voltar àquela padaria. O sonho não comido a assombrava. Decidiu que ousaria mais em sua vida, afinal não era mais criança. Parece uma grande besteira, porém Lara chegou a padaria até acanhada e diante do seu maior desafio, parou e refletiu por instantes. Logo viu que estava devaneando demais para concluir uma tarefa tão simples. Não sabia se apreciava ou se devorava. Era sem jeito comer aquele sonho. Alías, aquele sonho talvez não fosse tão difícil de comer, porque nem era assim tão bom. Então, a menina confusa se frustrou. Achou que teria um êxtase com aquela bola encaramelada de açúcar. De certa forma, o exagero proporcionado pela expectativa ensinou algumas coisas para mocinha já crescida.
De fato, sair da rotina e alcançar àquilo que te perturba como um obstáculo de vida dá uma sensação danada de boa. Se privar de fazer algo novo, por mais bobo que seja, por falta de costume é bem chato e deixa a vida entediante. Contudo, a lição do sonho de padaria para vida de Lara é essa: mesmo aquilo que consideramos não estar ao nosso alcance pode ser experimentado um dia e pode não agradar. Descobriremos durante a vida milhares de outras coisas a nos desafiar. Se Lara não tivesse se sentido tão ameaçada pelo sonho quem sabe ele não a proporcionaria uma sensação de prazer.
Lara hoje vive de música, canta nos barzinhos de Tirandentes e também faz o doutorado em Literatura na UFSJ.
Boa noite e um final de semana com muitos sonhos!

Alma romântica

Sempre haverá quem deprecie uma ideia romanceada, sempre haverá quem não tem essa leitura da vida. Faz mal não. 
Vive-se bem assim também.
Só sinto muito que eu não me permita ter a tua frieza, porque gosto da minha vida aquecida, encalourada, ardente. 
Gosto de admirar, de falar que quero bem, gosto de abraçar apertado e suspirando.
Gosto de apoio concreto, de demonstração de afeto, de modo mais besta e casual.
Não me envaideço por isso, talvez se eu não tivesse essa necessidade, redescobria outro tom.
Mas por hoje, quero não. Quero continuar na aposta.
Na vida com espaço para dizer que tem saudade, sem mediocridade e métrica.
Quero essa vida de devaneios afetados de amor, de graça, de melancolia, de poesia, de desejo.
Quero mais é escutar as músicas e as pessoas que aprecio, sentindo um trem bom no peito.
Quero mais é pensar num bem e querer estar perto.
Na minha vida cabe chorar de vez em quando por querer ser melhor a cada dia.
Na minha estrada vou com uma mala cheia e uma vazia.
E na minha alma romântica há mesmo muita vontade de coisas bonitas porque não me satisfaz o que está na ordem do dia.

De coração manteiga derretida



Sob a ótica do amor tudo me encanta.
Hoje. Nem sempre foi assim. Já foi e deixou de ser e voltou a ser.
Por uns tempos pregava que o amor nem existia. 
Inveja de pessoa ressentida. Assumo, pois é.
Há quem diga que é coisa do meu coração manteiga derretida.
Deve ser. Esse é o jeito que gosto de ser. Meu estar no mundo é sensível, é admirar sentimentos bons que se materializam no cotidiano, em palavras, em gestos, em combinações.
É isso, torcer que dê tudo certo para os amantes.
Se você acha isso bobo, pode crer também acho.
E ai que está, gosto muito das bobeiras da vida. Se não fossem elas, sei lá, seria bem mais chato viver.
Acho bonito.
Um casal em uma casa nova, juntos, sorrisos estampados e frio na barriga quando se pensa na convivência. No entanto, apostando tudo.
Acho graça.
Casal que prevê o que o outro pensa, o que o parceiro vai falar, do mesmo jeitinho.
Acho admirável.
Duas pessoas se unirem e assim ficarem até perderem a conta dos dias, das horas, dos anos.
Quanta coisa o amor supera.
Para terminar só peço uma coisa: "para nós todo amor do mundo"!

sábado, 7 de junho de 2014

Pipa



Ela olhava pela janela mas só via seu interior confuso.
Ela encontrou um conforto e nele sabia que só se aventurava, contravenção inocente.
Olhava mais alto e sentia o vento forte.  Achava que o vento podia levar qualquer coisa que desejasse.
Olhou mais alto e em frente e viu a pipa de um menino.
Só via a pipa e não o menino, contudo sabia que ele estava lá a brincar.
Quis imaginar como ele estaria. Estaria ele sorrindo, estaria ele sozinho, estaria ele se distraindo?
Enquanto olhava para o céu e para pipa a balançar com o vento que melhorou o dia do menino, a moça de pensamentos perdidos ouvia uma canção, uma bela canção.
Repetiu várias vezes aquele canto em pensamento. Fazia dele sua oração.
A moça pensava em sua história, com um pouco de drama como gostava de fazer.
Gostava de sentir. Gostava de pensar, de planejar e de ouvir músicas profundas.
Pensava no seu alívio, na letra daquela canção, na pipa e no amanhã.
Desejava que a verdade daquela voz bonita se tornasse a sua verdade.
Ardia de vontade de ser livre como um simples papel bem recortado e colado a hastes de madeira.
Sempre quis ver as coisas de cima. Panoramicamente.
Pecava por querer ver demais. Ver além. Entender da vida as coisas mais escondidas.
Mas naquele dia ela entendeu o que dizia aquela música, "É de Deus tudo aquilo que não se pode ver."
A moça não viu mais a pipa que sumiu num límpido azul do céu.
O que ela viu foi seu coração sereno ser tomado de um alívio melhor do que aquilo que a confortava antes.

sábado, 29 de março de 2014

Enche o peito de ar


Acorda, se veste, escova os dentes e corre para não perder o ônibus. No ônibus, a primeira experiência do dia de observar os seres humanos. Alguns ainda dormindo em pé como eu, outros euforicamente conversando ao telefone, os mais espertos conseguem ler um livro ou ouvir uma música. Alguns com uma dose de falta de educação matinal, outros gentis, simpáticos com um exuberante bom-humor no raiar do dia. Há o motorista e o trocador que devem ter acordado bem mais cedo que eu e que raramente estão dispostos a ser educados. Mas como de costume a gente dá o bom dia para exercitar e torce para que o motorista seja ágil na medida certa, já que nunca se consegue lugar para sentar. O peso de umas duas ou três sacolas com as necessidades do dia inteiro começa a ser percebido pelas mãos, pelos braços e pelos ombros e às vezes por passageiros generosos que oferecem uma ajudinha. Etapa vencida, a gente enche o peito de ar e renova o fôlego para um dia que está apenas começando.
Trabalho vai e trabalho vem. Passou o dia e é hora de encher o peito de ar para um retorno, menos apressado mas não menos tumultuado.

Ventilar o interior é uma necessidade não somente física. E isso é fácil de notar. A quantidade de ar que entra vem para que as toxinas que acumulamos no cotidiano possam dar lugar a um elemento puro. O ar.

Então, nobres senhores de estupim curto, antes de subir nas tamancas vamos encher o peito de ar.
Aos desanimados crônicos, sugiro, respire um pouco, ou intensamente, depois de uma corrida, dá um up jóia!
Aos sempre sem esperanças, inspire fundo e continue esperando até quando der mais uma vez.

E enquanto eu escrevia eu enchi o peito de ar por muitas coisas, espero que você também. Uma boa noite e amanhã cedo um bom dia.

Um aviso ao cara valente


Me desculpe a minha franqueza cara valente, mas hoje vou lhe dar alguns avisos. 
Valentia tem relação com muitas coisas mas não exige rigidez. 
Então, não precisa ter opiniões inflexíveis. É também permitido a você, mudar um pouco, de vez em quando. 
Cara valente, humildade é necessário, é atraente e digno de qualquer homem, até dos valentes. 
As provas que você insiste em oferecer a todos a sua volta, da sua valentia, só atesta sua incapacidade de confiança. Meu caro, quem é bom sabe só para si, não necessita espalhar a mensagem.
Cara valente, arrogância e grosseria deixou de ser másculo há bastante tempo. Portanto, descubra outras manobras para seduzir com mais sutileza, assim não está sendo esperto.
Espero que não queira ser valente para uma vida toda, mas se ainda assim quiser, lembre-se pelo menos de uma dessas palavras para começar: humildade. Vai por mim, há sempre mais charme no recato dos homens humildes.

Sem mais.