(Na grande maioria das pessoas, resta sempre algo da ordem do indomável e do ineducável, que a cultura é incapaz de controlar. Freud observa que "aqueles que desejam ser mais nobres do que suas constituições lhes permitem são vitimados pela neurose. Esses indivíduos teriam se sentido melhor se lhes fosse possível ser menos bons.")
Trecho retirado do livro de Nina Saroldi: O mal estar da civilização - as obrigações do desejo na era da globalização
Nós seres humanos com nossas exigências internas não conseguimos nos esquivar dos padrões nos quais tentamos nos enquadrar e de um sofrimento proveniente dessa impossibilidade. E que muitas vezes causam danos reversíveis, porém muito trabalhosos. Há que se repensar esse movimento humano, que caminha incansavelmente para um outro nível de neurose, diferente das do tempo de Freud, mas que funciona talvez de uma mesma forma - com o mesmo 'para quê'. O trecho acima me fez refletir para o ponto crucial "se sentiriam melhor se fossem menos bons". Ouço pessoas que se queixam diariamente de tentar ser perfeito demais. Essa é uma cilada moderna. Uma forma de aprisionamento talvez que nos autoriza nesse extremo, como se nele fosse permitido abusar. Não quero sugerir que as pessoas não tem que tentar ser melhores, mas colocar esse ideal antes de tudo e angustiar-se a tal ponto, não leva a progresso e nem a andamento nenhum. Precisa haver uma tentativa, da mesma forma que pode haver falhas e do mesmo jeito que se pode acertar! Tudo na vida tem o seu lugar.
"O inimigo do bom é o melhor".
terça-feira, 20 de novembro de 2012
domingo, 18 de novembro de 2012
Só não sei a direção
Abro a janela e deixo o sol entrar.
Deito na cama, tento não me ocupar.
Ao meu redor tudo sabe o que eu devo fazer.
Eu não sei, não tenho a direção.
Ainda não sei me acalmar. Não aprendi a descansar.
Sei dos planos, dos sonhos e dos afetos.
Mas às vezes não sei, não tenho a direção.
Sei dos livros, das músicas e dos sapatos.
Me vejo neles, me sinto neles, me apego a eles.
Pode amanhecer e anoitecer. Não posso mais diferenciar.
Abro as cortinas e fecho as janelas. Quero o ar e não os olhares.
Abro as janelas e fecho as cortinas. Quero os olhares e não quero o frio.
Deito na cama porque tenho com o que me preocupar. Tenho o que fazer.
Fica para amanhã e fica para depois. Preciso descansar.
Sei dos gestos, sei das palavras, sei do silêncio. Um infinito particular.
Sei dos acordes, sei dos tons e sei dos sons.
Só não sei a direção, não sei o ritmo.
Não entendo o compasso do coração.
Deito na cama, tento não me ocupar.
Ao meu redor tudo sabe o que eu devo fazer.
Eu não sei, não tenho a direção.
Ainda não sei me acalmar. Não aprendi a descansar.
Sei dos planos, dos sonhos e dos afetos.
Mas às vezes não sei, não tenho a direção.
Sei dos livros, das músicas e dos sapatos.
Me vejo neles, me sinto neles, me apego a eles.
Pode amanhecer e anoitecer. Não posso mais diferenciar.
Abro as cortinas e fecho as janelas. Quero o ar e não os olhares.
Abro as janelas e fecho as cortinas. Quero os olhares e não quero o frio.
Deito na cama porque tenho com o que me preocupar. Tenho o que fazer.
Fica para amanhã e fica para depois. Preciso descansar.
Sei dos gestos, sei das palavras, sei do silêncio. Um infinito particular.
Sei dos acordes, sei dos tons e sei dos sons.
Só não sei a direção, não sei o ritmo.
Não entendo o compasso do coração.
domingo, 11 de novembro de 2012
Vi-vendo para ver
O mundo me promete progresso e eu acredito. O mundo me pede paciência e eu insisto. O mundo me pede para acreditar e eu desconfio. Disseram-me muitas coisas. Que vence o melhor, que precisamos uns dos outros, que tenho que fazer sempre mais, que devo dar a face para o outro bater. Eu sempre me pergunto se ainda existem verdades nesse conjunto de informações. Nada concluo. Num dia se aprende a ceder, no outro se aprende a perder, e no outro você descobre que é muito mais que isso. Vão dizer para seguir o coração e agir com a razão. Vão dizer seja forte mas saiba que fraquejar é normal. Vão dizer que auto-estima resolve tudo e que não tem fórmula pronta. Cada ser humano tem suas infinitas teorias de como viver. Tal qual os cientistas, se esquece que sempre cuidamos das leis e mal sabemos aplicá-las. Compreendê-las não é vivê-las, ainda que seja o primeiro passo. Inevitável e felizmente temos capacidade para proteger nossa estima de que vamos aprender direitinho o que é melhor a fazer. E que o tempo nos tornará sábios para encarar o que vier pela frente. E mais uma vez eu me pergunto. Que progresso é possível? Pessoas acostumadas a achar que aprenderam com a vida, exalam uma certa arrogância da conquista da verdade. Eu sei que é assim, dizem, eu já passei por isso. E as leis gerais do comportamento funcionam de forma a sugerir que se deva levar em conta, afinal é a experiência dizendo. Paciência, até que ponto? Às vezes, o que mais precisamos é saber mudar a rota, é não esperar mais por algo que minha vã insistência entende como caminho. Arrancar das minhas convicções que ao invés de pacientemente aguardar dádivas, eu posso me esforçar mais, essa é uma necessidade ignorada. A vida deveria ser uma eterna investigação científica séria. Onde as hipóteses serão testadas e acreditar ou não é só questão de evidências. Nossa frágil ingenuidade nos coloca na posição de submissão frente às crenças que inconscientemente o mundo nos impõe. Acredite que aquilo lhe fará feliz, acredite que você vai vencer, que acreditar que tudo vai dar certo como condição para sucesso. Uma medida de dúvida se presta mais a fazer acontecer que a própria crença. Pois é quando eu não sei o que vai acontecer que eu me entrego, arriscando com a margem de segurança de quem pode não ter feito a melhor escolha, mas que a faz. Na balada da contra-mão, exercito-me pondo em xeque àquilo que enraizado está na sabedoria cotidiana. Posso ter elencado uma porção de bobagens, mas a atividade crítica do que instituiu-se como generalizações no mundo certamente me incomoda. A cada homem a vida ensina de forma particular. Faremos sempre trocas de saberes e experiências, teremos sempre sabedorias a partilhar, crendices nas quais se apoiar e verdades em que iremos acreditar. Basta não aceitar tudo sem crivo, sem critério e sem a sua própria vivência para as conclusões tirar.
E assim, desejo um pouco de dúvidas a você.
E assim, desejo um pouco de dúvidas a você.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Abre-se a compota
Uma experiência difícil dessa vida é compreender nossas angústias. Revelá-las e sobretudo abrir caminhos para dissipar esse mal, se é que tem jeito. Se nesses textos que escrevo a melancolia parece estar embuída de angústia, não nego, tem muito disso. E não sei bem como denominar o que pretendo fazer com as angústias, talvez tolerar, suportar, encaminhar, resolver, esvaziar ou até conviver... Quando algo não vai bem, a produtividade despenca, a afetividade se afeta e a ansiedade acelera. Supostamente, deveria entender dessas coisas num outro plano, mas eu entendo bem empaticamente, do lado de analisando. Sei que é um grande passo a passo que cansa, desanima e padece, mas que vai, de um jeito ou de outro. Como sujeito de linguagem, eu muitas vezes não quero dizer nada, quero esconder e guardar tudo só para mim. Mas quando se "abre a compota" é difícil ficar só na linguagem, o corpo chora junto. Você pode estar pensando que eu tenho problemas absurdamente difíceis de se solucionar. Não é isso. Só tenho dificuldades de encaminhar minhas questões que não andam e lidar com minha existência incompleta e insatisfeita. Nessa empreitada continuo a viver como qualquer bom vivente, trabalhando, estudando, tendo amigos e me relacionando com todas as coisas do mundo. Uma maneira que encontrei para colocar minhas perguntas é escrever aqui, ou dialogar com um colega interessado, antes de me entupir de antidepressivos, ansiolídicos, sair fazendo cirurgias plásticas, me viciar em drogas, ou em consumismos vãos, para dar conta daquilo que nem sei o que é, só sei que se sente. Antes mesmo de me desequilibrar no convívio social, de abandonar a análise e correr atrás de um psiquiatra que me diagnostique com crise de ansiedade e depressão, só quero ter o direito de não me sentir contente. E isso não é para todo dia. Na minha reflexão, no meu autoconhecimento mereço entender porque o meu funcionamento histórico me determinou assim, e saber o caminho a percorrer para estar mais perto daquilo que quero ser, construir e desejar. Se você que lê isso e acha triste demais, lamento. Repito, amanhã pode ser diferente. Não é questão de humor, não sou bipolar. Apenas retrato aquilo que se passa pela minha humanidade e através dela sei que posso superar os percalços, não supervalorizados mas devidamente notados que me atravessam. Sabendo que enfim, abrindo-me honestamente, nas fragilidades expostas eu possa enfim sentir saúde e paz, independente da imperativa felicidade.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Sem citação, sem referência, falando por mim!
Sobe e desce.
Agudo e grave.
Fino e grosso.
Esquerda e direita.
Para que lado devo ir?
Alegre ou triste.
Frio ou quente.
São e insano.
Qual é a sua loucura?
Sozinho ou acompanhado.
Introvertido ou extrovertido.
Motivado ou desmotivado.
Do que você gosta na vida?
Doce ou salgado.
Preto ou branco.
Livro ou filme.
Jazz ou samba.
Com quais atributos você qualifica suas escolhas?
Hetero ou homo.
Bonito ou feio.
Simpático ou antipático.
Sinônimos ou antônimos.
Na racionalidade da linguagem, assim como na irracionalidade do sujeito, os opostos caminham lado a lado. Paradoxalmente na impossibilidade da possibilidade do ser. Para alguns, preferências imutáveis, para outros, flexibilidade insistente, e outros ainda, rigidez radical. Não obstante, os significados pedem referência, por mais que se tente operar conceito, quem o faz, reduz. Quem interpreta é o sujeito, que responde felizmente a uma louvável indefinição dos significados. Embora permeados de significantes, o que seria isso mesmo? Se não uma reconstrução da linguagem em análise, para construção de um ser?
(Que Freud e Lacan me perdoem se bobagens foram ditas! Amém)
Agudo e grave.
Fino e grosso.
Esquerda e direita.
Para que lado devo ir?
Alegre ou triste.
Frio ou quente.
São e insano.
Qual é a sua loucura?
Sozinho ou acompanhado.
Introvertido ou extrovertido.
Motivado ou desmotivado.
Do que você gosta na vida?
Doce ou salgado.
Preto ou branco.
Livro ou filme.
Jazz ou samba.
Com quais atributos você qualifica suas escolhas?
Hetero ou homo.
Bonito ou feio.
Simpático ou antipático.
Sinônimos ou antônimos.
Na racionalidade da linguagem, assim como na irracionalidade do sujeito, os opostos caminham lado a lado. Paradoxalmente na impossibilidade da possibilidade do ser. Para alguns, preferências imutáveis, para outros, flexibilidade insistente, e outros ainda, rigidez radical. Não obstante, os significados pedem referência, por mais que se tente operar conceito, quem o faz, reduz. Quem interpreta é o sujeito, que responde felizmente a uma louvável indefinição dos significados. Embora permeados de significantes, o que seria isso mesmo? Se não uma reconstrução da linguagem em análise, para construção de um ser?
(Que Freud e Lacan me perdoem se bobagens foram ditas! Amém)
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Sempre há tempo
Obnubilação constante.
Rara cosciência dada.
Repetidamente aflita, deu-se ao cansaço.
Perplexa com emaranhados.
Alento ausente.
Aconchego distante, viu-se só.
Era hora disso ou daquilo.
Não importa, talvez.
Conselhos errantes.
Crenças desvirtuosas.
Certezas em falso, outra vez.
Recompõe-se como? Não sei.
Incomoda-se por dentro e por fora.
Foi pro rio, foi pro mar.
Começou a rir e a cantar.
Dissipou a bravura.
Escreveu linhas tortas com inflexível tônus muscular.
Falou do que não entendia, assumiu que sofria.
Chorou por amar.
Represálias recebidas.
Contar não podia a quem queria declarar.
Sempre há tempo.
No instante não se compreende.
Na vida vai sobrar.
Desejo não atendido, destino cedido, uma flor a murchar.
Sempre há tempo.
Na vida vai faltar.
Esperanças a fio, amor correspondido, ar puro para respirar.
Rara cosciência dada.
Repetidamente aflita, deu-se ao cansaço.
Perplexa com emaranhados.
Alento ausente.
Aconchego distante, viu-se só.
Era hora disso ou daquilo.
Não importa, talvez.
Conselhos errantes.
Crenças desvirtuosas.
Certezas em falso, outra vez.
Recompõe-se como? Não sei.
Incomoda-se por dentro e por fora.
Foi pro rio, foi pro mar.
Começou a rir e a cantar.
Dissipou a bravura.
Escreveu linhas tortas com inflexível tônus muscular.
Falou do que não entendia, assumiu que sofria.
Chorou por amar.
Represálias recebidas.
Contar não podia a quem queria declarar.
Sempre há tempo.
No instante não se compreende.
Na vida vai sobrar.
Desejo não atendido, destino cedido, uma flor a murchar.
Sempre há tempo.
Na vida vai faltar.
Esperanças a fio, amor correspondido, ar puro para respirar.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Tornar vazio
Transbordar certeza
Entornar saber
Derramar euforia
Esgotar amor
Detalhar desejo
Tornar vazio.
Entornar saber
Derramar euforia
Esgotar amor
Detalhar desejo
Tornar vazio.
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